EU E AUGUSTO

 

Curadoria:

Eudes Rocha

 

Local: Usina Cultural Energisa - João Pessoa/PB

 

Abertura: 24/08/2012, 19h

Exposição: 24/08 a 31/08/2012

 

TextoUM CÉU DE ABISMOS.

 

Walter Galvão

 

Havia um encontro marcado desde sempre entre a imaginação criadora de Augusto dos Anjos e a de Eulâmpio Neto. Encontro que se materializa nesta mostra. É o lugar entre um ideal, a arte como intento transcendente, e o radicalismo da experiência racional e crua do viver e suas circunstâncias como o parto e a perda, o medo, a morte e a dor. Estamos diante de um espaço virtual, psíquico, mas também concreto, onde o pesadelo sopra uma fantasia transgressiva no vidro incandescente da angústia cotidiana. 
No conjunto e em cada elemento, em cada escultura desta mostra, convergem sensações e percepções do corpo transformadas em objetos artísticos. O conjunto sinaliza para um bestiário das perversões emotivas individuais e coletivas, que tanto laceram e chicoteiam a carne, quanto motivam as práticas culturais do corpo-ser alienado da harmonia, separado do sentimento idílico, da entrega prazerosa a qualquer busca utópica.
Em cada escultura, a técnica é um vórtice, uma voragem de energia. A energia do manejo da matéria que o artista Eulâmpio molda para operar a conversão tridimensional do anatômico regular na simbologia que soa e freme nos versos do poeta que escreveu que o nosso único direito é “o de chorar”.
Em Augusto, a geometria do ritmo gera a forma poética, a métrica dos versos contém as imagens, imagens de um “eu” que é uma falência só. O corpo, sujeito, é a caixa de pandora em que habitam o traidor e o monstro, é o pasto para os vermes, palco da decadência.
Em Eulâmpio, o conteúdo de Augusto é que é a forma observada por uma lente de cristal manchada de sangue. O corpo sugerido por Augusto através da arquitetura da métrica rígida e das rimas musicais dos poemas conquista na trama da terracota manejada por Eulâmpio volumes de simetrias transtornadas que agregam os ritos metodológicos, composicionais, do expressionismo com seu logicismo exacerbado, quase redundante, e também a estética do hiper-realismo de contemporâneos a exemplo do suíço Hans Ruedi Giger, esse numa abordagem mais para o ciberpunk com seus seres infernais, dantescos, híbridos, tecnorgânicos. Mas o estranhamento e o efeito hipnótico que as peças deles produzem são convergentes: eletrizam o olhar e impactam a zona de conforto moral da nossa consciência do mundo.
Eulâmpio, nas peças que interpretam e simbolizam os poemas, como em “Mater”, “Versos íntimos”, “Psicologia de um vencido”, é o escultor da crise total, focaliza e reinventa o convulso e o agônico, reelabora o céu sombrio do abismo existencial do materialismo sem as ilusões redentoras do romantismo sentimental. Faz a crônica sensorial do aniquilamento do lirismo sem a perda do sensualismo da forma corpórea básica, mantendo a paixão das criações indispensáveis à mutação simbólica das referências interpretativas do ser.
 Os dois artistas, distantes no tempo cronológico, mas viventes de uma mesma temporalidade histórico-estilística, a modernidade das convulsões enfrentadas pelo sujeito em crise, conquistaram espaço autoral legítimo, irreversível, para referências quanto a avanços do fazer artístico em tempos de crise. Juntos, eles propõem, nesse agora de novas e radicais mutações da arte e da vida, o humano demasiado humano que nos impulsiona e que nos devora.  

      

ecdise antromórfica
ecdise antromórfica

terracota, 20 x 18 x 49,5 cm, 2012.

ecdise antromórfica
ecdise antromórfica

terracota, 20 x 18 x 49,5 cm, 2012.

consciência
consciência

terracota, 33,8 x 19 x 36 cm, 2012.

macaco autofágico
macaco autofágico

terracota, 29,3 x 35 x 31 cm, 2012

macaco autofágico
macaco autofágico

terracota, 29,3 x 35 x 31 cm, 2012

carnificina
carnificina

terracota, 47 x 28 x 28,5 cm, 2012.

misantropo
misantropo

terracota, 42 x 20 x 24,5 cm, 2012

misantropo
misantropo

terracota, 42 x 20 x 24,5 cm, 2012

beijo da morte
beijo da morte

terracota, 38 x 31 x 24,5 cm, 2012

coveiro
coveiro

terracota, 37,5 x 22,5 x 18 cm, 2012.

(de)composição
(de)composição

terracota, 15,3 x 26 x 42,5 cm, 2012.

medo
medo

terracota, 43 x 41 x 26 cm, 2008.