USANDO A CERÂMICA PARA FALAR DE POESIA

Eudes Rocha

 

Que outro estilo melhor se presta a exprimir dor, angústia, sofrimento e revolta senão  o expressionismo ? Na presente Mostra Eulâmpio  da Silva Neto lança mão dessa proposta, desse estilo, para  moldar na argila o discurso do nosso “poeta maior” Augusto dos Anjos.

O artista, desde sempre aficcionado da poesia “augustiana” lembrou-se  de que neste ano de 2012 celebra-se o centenário de publicação  da primeira edição do EU e,  por conta própria resolveu selecionar dez poemas desse seu poeta favorito e, de cada um deles, escolheu uma estrofe de sua preferência.  Seu intuito era plasmar no barro as ideias extraídas de cada um desses versos o que resultou  num sensacional conjunto de dez esculturas em terracota que, para melhor fruição do público visitante, escolhemos colocar diante de cada escultura a respectiva estrofe que ensejou a sua  produção, a sua criação no universo das artes visuais

São imagens  fortes, por vezes até chocantes e isto deve-se  à própria poesia de Augusto dos Anjos  que sem qualquer  parcimônia e à todo tempo fala de sentimentos sombrios, da sua repulsa às misérias e infâmias  que acometem a humanidade, falando das dores do mundo, dos fantasmas do remorso, de medos e de amores sufocados.

Detentor de um extraordinário domínio da anatomia humana e animal, Eulâmpio esmera-se no realismo das imagens que imprime à cada peça. A exemplo temos O Medo, escultura com a qual   o artista  expressa a “besta que solta seu berro noite à fora”, imagem essa que é exibida em toda a sua arrepiante expressividade. E por ser acostumado à precisão anatômica e ao rigor das proporções esse artista me surpreendeu quando me apresentou a sua  Mater, em que a cabeça do nenem que quase emerge  do ventre materno  é maior do que a de sua mãe. Indagado a respeito Eulâmpio apressou-se em esclarecer que isso era proposital, para apresentar uma deformidade, um aleijão na espécie humana como  é tão frequente no discurso do poeta.

Podemos dizer que Eulâmpio desafiou a si próprio na interpretação desses versos e certamente saiu-se bem nessa empreitada e assim prossegue o artista que à cada peça transforma em “realidade”  as ideias que as estrofes lhe sugerem. É bem verdade que há algo de chocante nesse conjunto escultórico mas não poderia ser diferente quando se tenta interpretar a poesia de Augusto que escolheu a dor, o medo e a angústia para falar da existência humana...

 

                                               João Pessoa, 05 de  agosto de 2012.

                                                          Eudes Rocha (Curador)

                                              Associação Brasileira de Críticos de Arte