Arte não imita natureza, é certo. Mas, e a natureza do homem?

 

A imagem do homem

 

William Costa

Jornalista e Crítico de Arte

 

Arte não imita natureza, é certo. Mas, e a natureza do homem? Não busque um sentido nesta misteriosa frase, caro leitor; ela é pura provocação e serve apenas de intróito ao que tenho a dizer sobre um determinado escultor.

 

Sem a pretensão de fazer “crítica de arte comparada”, devo registrar que, dentre as exposições de esculturas que visitei, nos últimos anos, na capital da Paraíba, uma em particular me chamou a atenção: “Dor”, de Eulâmpio.

 

Por quê? Em linhas gerais, a escultura em argila que por aqui se produz e se expõe tem um substrato, digamos assim, popular. E isto não é um aspecto negativo. Pelo contrário. Revela um compromisso estético elementar.

 

Mas havia uma lacuna a ser preenchida. A opção por outro caminho, de lastro erudito, mais identificado, por assim dizer, com a valorização da escultura iniciada, na França, por Auguste Rodin, discípulo de Michelângelo.

 

Determinadas esculturas em argila andavam carentes de realidade e vida. Suas formas expressavam beleza – até pela perícia técnica de seus mestres -, mas uma beleza desprovida de emoção, de sentimentos. “Arte pela arte”...

 

Eulâmpio é anatomista. Conhece, portanto, o corpo humano por dentro e por fora. Mas existem milhares de anatomistas por aí e nem todos, aliás, só uma meia dúzia deve exercer, também, a profissão de artista visual.

 

Imagino que foi a partir da observação de corpos humanos – inteiros ou dissecados – que Eulâmpio sentiu queimar em seu sangue o veneno da beleza; o desejo ancestral de tentar expressar a irracionalidade que habita o homem.

 

Transfigurar a realidade crua e fria do morto. Ressuscitá-lo com o sopro quente da arte. E injetá-lo de medo, de loucura, de depressão, de solidão, de angústia, até torná-lo o espelho de barro da nossa realidade interior. Eis a questão...

 

Eulâmpio, porém, não produz “seres humanos” em escala menor. Produz arte da maior qualidade; esculturas inspiradas nos medos que assolam o homem desde que o mundo é mundo, e mais alguns gerados pela modernidade.

 

“E chegou lá”, como diria Solha. Suas peças gritam, sussurram, sufocam, bafejam e se contorcem... de dor. Quase é possível sentir o hálito de suas bocas. E compartilhamos, mesmo, com elas uma sensação de claustrofobia.

 

O artista é um grande perito em anatomia humana. Mas transcende e rompe com o realismo não só por serem miniaturas de corpos humanos, as suas esculturas, mas pela expressão, distorção e “cortes” que a elas ele impõe.

 

O mais importante: as pequenas esculturas de Eulâmpio fazem renascer em nós a compaixão, o altruísmo perdido. Elas nos fazem (re)lembrar a intrínseca condição humana. O que somos, afinal, quando estamos sós... e nus!

 

Na era do fetiche. Na era do consumo. Onde tudo, mas tudo mesmo, é mercadoria, a arte de Eulâmpio nos devolve a humanidade perdida. Isto também é troca... mas troca de afeto, o bem que tanto nos falta.